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(Des)conhecidos

por aesperaparavoar, em 05.07.15

Ele tinha nome, mas, toda a gente insistia em chamar-lhe outros que não o dele. Era louco, é verdade, contudo, ele também tinha sentimentos. Sentia, por vezes, muito mais do que demonstrava. 

Não era pessoa de se fiar ou de almejar criar ligações com alguém, mas, caminhava triunfante, por entre olhares de julgamento - aqueles a que já se havia habituado por fazerem parte da rotina -  com a convicção de estar a viver mais um dia.

Avistou então uma menina que passava perto de si e, na sua insanidade, aproveitou a ocasião e disse-lhe olá. Assim mesmo, sem meias medidas. Pobre coitado, estava delirante!

O seu "olá" entusiástico desarmou-a e desenhou-lhe um sorriso no rosto. Ela, uma menina-mulher com a segurança de quem - em verdade - era tudo menos confiante em si mesma, retorquiu-lhe o cumprimento. Tão simples, tão naturalmente como se adormece, sem rodeios que, pensava ela, não tinham que existir. E não. 

Ela não sabia, mas, naquele momento ele estava inquieto por descobrir mais sobre ela. E havia tanto dela que ninguém conhecia, coisas que por entre subterfúgios ela procurava não demonstrar. Não era medo, mas apenas uma proteção. Corou. Ele ainda ali estava, inerte, a olhá-la. 

Então, ela procurou-lhe se precisava de alguma coisa, se lhe queria falar ou se tencionava ficar ali a olhá-la. Não o disse com desdém, ao contrário dos outros que costumavam abordá-lo a ele com regularidade. 

Ele, de tão absorto, não respondeu. 

Nesse momento ela podia ter decidido ir-se embora. Não era mulher de meias-palavras, nunca o fora, nem sequer de situações pouco esclarecidas. Fugia delas. Estranho era, por isso, que ela continuasse ali, à espera do desenrolar de uma conversa que, por entre trejeitos, parecia não estar destinada a existir. Ou se calhar estava. E talvez fosse por isso que esperava, numa esperança disfarçada por detrás de uma postura serena.  

Olhou-o por duas vezes e preparou-se para falar. Não sabia o que dizer, mas, queria falar. Não o fez de imediato.
"Talvez possamos ir beber um café?" - disse, por fim, segundos depois. 
Arrependeu-se no mesmo instante em que falou. Atrevida, a miúda. 

Mas, ele estava tão encantado que o pasmo lhe roubou as palavras, e queria falar, mas, tudo o que pudesse dizer era pouco para descrever a alegria que a sua alma estava a sentir. 

Estavam ali os dois, há seguramente mais tempo do que perderiam com qualquer outra pessoa, mas nenhum deles sabia porquê.

Ela olhava-o à espera de algo, algo que podia não chegar e que nem ela sabia o que era. Esperava, só isso.
Ele, por sua vez, naquele desejo desenfreado de dizer alguma coisa, ficou calado. As palavras congelavam-se-lhe na língua.  E os pensamentos - no momento, puros desabafos do seu subconsciente desconcertado - descarrilavam-lhe as expressões. 
Não estava sério, talvez apenas apreensivo. Demorou a responder-lhe, não com palavras - essas tinham-se perdido nos pensamentos - mas antes com um ligeiro abanar de cabeça. 
Então ela, no embaraço de tentar desfazer todo aquele embargo, sorriu novamente. E o sorriso dela veio acalmar-lhe o espírito. Foi o suficiente para quebrar o gelo entre eles.
Além disso, o brilho dos olhos dela deu-lhe - a ele - a certeza de que era seguro arriscar falar. 
- Onde vamos beber esse café? -  aventurou-se, num impulso. E, naquele momento tão desajeitado, ele percebeu que estava atraído por ela.
E ela - alheia a isso - estava também. 

Começaram a caminhar sem um rumo definido. Os seus passos soavam a incerteza, mas isso era apenas um detalhe, uma minúcia no meio de toda a excitação que aquele encontro desencontrado os fazia sentir. 

Ela, uma mulher impulsiva e um tanto imprevisível, por entre aquilo que não dizia - que era muito menos do que pensava e muito mais do que dizia -  começava agora a mostrar-se. Tinha-o incentivado dando o primeiro passo, embora ele, no seu intrínseco, já fosse muito longe dali. 
Foram. Dois desconhecidos que já se conheciam melhor do que muitos outros seres que se apregoavam amigos, mas nem eles sabiam disso. 
O caminho ia-se trilhando a cada passo, e a certeza de não saberem onde iriam parar fê-los sentir um frenesim de quem tem adrenalina a correr-lhe nas veias e o coração a pulsar vigorosamente dentro do corpo. E, por entre toda aquela excitação - aprisionada dentro de cada um -, pareciam duas crianças pequenas, os palermas!
 

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