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Café

por aesperaparavoar, em 29.10.15

Levantei-me do sofá - o tal que me tem acolhido durante dias a fio - e ousei vestir-me para sair. Num impulso saí de casa. Há muitos dias que não o fazia, há dias consecutivos que vivo numa vida sem vida que me fez perceber o que o nosso caminho é feito de muitas voltas e de idas sem volta, e que a vida pode ser cruel e certeira ao ponto de acertar no centro das nossas fragilidades. A mim, acertou-me em cheio, naquele dia fatídico em que me roubou um pedaço de mim. O homem que ensinou que a felicidade está nas coisas mais simples e que os pequenos detalhes fazem toda a diferença. A pessoa que me trouxe a serenidade por me fazer perceber que a sorrir é tudo muito mais fácil de se viver. O amigo, o companheiro, o namorado - quase marido - que durante tantos anos me fez sentir que tínhamos a vida aos nossos pés, e que éramos dois a lutar, por nós, pelos nossos sonhos, pelos sorrisos, pela vida e, acima de tudo, por uma vida juntos.

Assim que desci as escadas do prédio senti o olhar dos vizinhos sobre mim. Senti também a preocupação, que talvez fosse apenas curiosidade, de me virem perguntar como eu estava e, na verdade, percebi imediatamente porque me deixei ficar presa em casa todos estes dias. As perguntas e os olhares de compaixão das pessoas fazem com que a minha cabeça repita constantemente momentos que anseio atenuar nas minhas memórias e, embora eu saiba que o tempo não vai fazer com que eu os esqueça ou com que eles deixem de doer dentro de mim, espero que ele sirva para fazer com que esta dor acalme e o meu coração sossegue. 

Pouco depois, e num movimento quase mecânico, sentei-me na mesa onde costumávamos sentar-nos sempre. Pedi um café. Nunca um café teve um sabor tão amargo para mim.

 

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publicado às 20:07

Prisioneira (continuação)

por aesperaparavoar, em 03.09.15

A porta abre-se subitamente e eu estremeço. Sinto um arrepio e uma sensação de medo que nunca me foi característico.

- Camila! Já te dissemos que tens de alimentar, porque é que não tocaste no almoço?

A pergunta perde-se na falta de resposta. Não me lembrei de comer. Aqui não me reconheço, não sou eu, e não tenho muitas palavras.... desvanecem-se quase todas na angustia que me preenche os dias, e na revolta com que suplico para que me tirem daqui. Ninguém me ouve, ou então, fingem não ouvir. E eu volto a sentar-me no chão gelado, aninho-me e abraço as minhas pernas com toda a força que ainda me resta, depois poiso a cabeça sobre elas e fico assim horas e horas. Perdida. 

Ao jantar ouço novamente palavras semelhantes às do almoço.

- Carlota tens de comer para depois tomares os medicamente, anda, levanta-te! Come!

Arrasto-me pelo chão até chegar ao sítio onde o enfermeiro me deixou o tabuleiro e fico a olhá-lo fixamente. 

- Come! - repete-me, com frieza. 

É neste momento que, muitas vezes, as lágrimas me percorrem o rosto. A dor torna-se tão forte e insuportável que choro compulsivamente e dou por mim a implorar novamente que me tirem daqui, que ao menos me deixem ver a luz do sol e sentir o vento a baloiçar-me os cabelos. Já nem me atrevo a pedir que me deixem pisar a areia da praia e dar um mergulho no mar. E eu queria tanto fazê-lo.

Grito, mas, ninguém me ouve. 

 

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publicado às 12:36

Prisioneira

por aesperaparavoar, em 02.09.15

Permaneço aqui. Presa neste sítio frio e escuro onde me fecharam e me fizeram prisioneira deles e de mim própria. Supliquei várias vezes que não tivessem meiguices comigo, que me matassem logo em vez de me deixarem aqui assim, o que na verdade não é mais do que ver a morte a chegar de uma forma tortuosa. E pela primeira vez na minha vida sinto-me fora de mim. Atirada a um destino a que não vejo jeito nem modos. 

Limito-me a estar aqui, nesta sala fechada, tão vazia e ao mesmo tempo tão cheia... de silêncio, de pensamentos desengonçados que pairam no ar e que fazem no meu interior uma guerra constante. 

Manifesto muitas vezes a vontade que tenho de me ir embora, de me libertar deste sítio que só me trás tristeza e solidão. Respondem-me sempre o mesmo, que sou louca e que tenho de me curar. Pergunto-me muitas vezes se eles me querem curar ou enlouquecer ainda mais, e desejo outras tantas vezes ter insanidade suficiente para não sentir dor, para idealizar um jardim dentro destas paredes, um que traga uma lufada de cores e de ar fresco a este espaço de onde só quero fugir. E já me debati tantas vezes contra aquela porta, que só se abre para me trazerem a comida ou para me adormecerem com medicamentes, que me sinto sem forças. E é tão triste e tão sufocante, ver a vida de pernas para o ar e não saber como lhe dar a volta. 

 

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publicado às 15:26

Volta ou então deixa-me para sempre

por aesperaparavoar, em 18.12.14

Amo-te.

Não sei como nem porquê, não sei sequer porque insisto em te amar, mas sei que te amo. Sei que é amor, embora eu não seja corajosa o suficiente para o admitir em frente aos teus olhos, muito menos depois de tudo o que já vivemos. Desculpa a minha cobardia, mas eu sei que o teu olhar de desilusão ia acabar com o pouco que ainda resta de mim. E acredita que ninguém mais do que eu gostaria de estar contigo agora e de dizer-te tudo isto, mas não sou capaz. Desculpa, não sou capaz. Apesar disso, achei que devias saber que foste, és e sempre serás especial para mim. Esta é a verdade. Não te esqueci, embora eu tenha agido como tal. És tu, sempre foste tu. Ambos sabemos que sim.

Sabes, amo-te ainda mais desde que te tive e não fui capaz de te manter na minha vida. Perder-te foi o meu momento de paragem. Percebi que cada vez mais estava a caminhar para longe de mim, e de ti, e tu és demasiado importante para mim para me permitir perder-te de vez. E hoje só desejava poder abraçar-te, poder dar-te o carinho que eu sei que precisas, que mereces. Tenho saudades, tantas saudades dos teus braços em volta do meu corpo, do teu toque na minha pele, das tuas palavras sussurradas ao meu ouvido, dos nossos olhares de cumplicidade, da felicidade que sentia de cada vez que estávamos juntos, das gargalhadas que provocavas em mim. E do teu perfume. Sim, do teu perfume. Guardo-o em mim na esperança de poder voltar a senti-lo. 

 Às vezes odeio-me por te amar desta maneira, e odeio-te por mexeres tanto comigo. Odeio ainda mais a ideia de que te perdi, mas espero ainda ir a tempo.

Volta.

É incrível como sinto tudo como se tivesse sido hoje, e por mais que eu tente, não me consigo afastar, mas eu sei que devia. Por mim, por ti.

E embora eu me esforce por seguir em frente, não consigo, e na verdade, não sei se quero. Hoje eu percebi que tu és a melhor parte de mim, tudo o resto são fragmentos de alguém que se perdeu com o tempo e que não soube encarar os seus problemas. Tive medo. Sim, medo. Medo dos meus próprios sentimentos, de me entregar, medo de errar. Mas hoje não tenho mais esse medo, se soubesses o quanto me arrependo de ter deixado que ele se atravessasse entre nós…

Tenho saudades tuas. Sinto tanto a tua falta.

Olho para trás, pergunto-me porque não te disse nada disto antes. Talvez tudo tivesse sido diferente, mas aconteceu assim.

Tu foste o único que não desistiu de mim, foste o único a ficar quando toda a gente já me tinha deixado para trás. Nunca vou saber como te agradecer por não teres ido naquele momento, mas ainda bem que não foste. Desculpa se depois te magoei, se as minhas atitudes te obrigaram a ir.

Magoámo-nos os dois.

 Doeu perceber que afinal não eras “meu”. Eu sei que não te dei tudo de mim, mas tentei, juro-te que tentei. E sei que mesmo assim consegui dar-te muito mais do que já alguma vez dei a alguém.

Amo-te.

 

lazyineke:•✩Ocean // Indie✩•

 

P.S.: Este foi um texto que escrevi à pouco tempo, surgiu de uma ideia que tive para o início de "qualquer coisa" (sabe-se lá o quê!!!!!). Aviso que é tudo fictício, e "qualquer coisa" que parta disto também será!

 

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publicado às 19:20

A mil

por aesperaparavoar, em 22.11.14

Foi assim esta semana, a 1000!

Sou defensora que o tempo, bem gerido, dá para tudo, e que há certas atividades que nos fazem bem de tal forma que não as devemos excluir da nossa vida, mas, a verdade é que "isto" cansa e cansa a valer! 

Esta semana foi, provavelmente, das semanas mais agitadas de que tenho memória, e suspeito que aquela que está para vir o será também. Segunda-feira foi o único dia em que, depois de ter terminado as aulas às 18h00, consegui chegar a casa e dedicar-me à Matemática sem sentir que tinha ainda outras tantas coisas para fazer. Na Terça-feira tinha, supostamente, tarde livre, mas fui convidada para participar numa conferência relacionada com o tema "Como é ser aluno do secundário?" e por isso lá fui eu... e quando cheguei a casa, mais Matemática, e ainda dediquei também algum tempo à minha "grande amiga" Física. Na Quarta o dia foi mesmo "de loucos", para além das aulas tive ainda de tratar de imensas coisas para o lançamento do livro (que é para para a semana, dia 29) e de acabar as preparações para o Dia da Filosofia (20 de Novembro). Na Quinta-feira tive então, no âmbito do Dia Internacional da Filosofia, oportunidade de apresentar o concurso "Quem quer ser filósofo?" para as turmas de 10º/11º/12º anos e ainda de declamar dois poemas que gosto particularmente, "Pedra Filosofal" (de António Gedeão) e "Cântico Negro" (de José Régio). Diverti-me imenso, aliás, quem me conhece sabe que adoro este tipo de atividades! Ontem, Sexta-feira, acabei o dia de aulas às 18h00 e adivinhem, com teste de Matemática! Depois ainda vim a casa trocar de roupa e comer qualquer coisa rapidamente e voltei para o colégio para a aula de Zumba, sim porque no fim de uma semana destas estava a precisar de libertar energias!

Verdade seja dita, não gosto de estar parada, gosto de ter que fazer, daquele frenesim e agitação, mas de vez em quando sabe bem parar e descansar, ver um filme descansadamente, ler um livro sem pressas, e enfim, ter uns minutos de paragem.

De momento estou em modo "fim-de-semana", embora esta semana ele vá ser sempre a mexer! 

 

euoria:Boho ⌖ Indie

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publicado às 08:28

Desabafo

por aesperaparavoar, em 24.10.14

Hoje vou atrever-me a fugir um bocadinho ao tema do blogue, vou permitir-me partilhar com quem me lê um tema que durante toda a semana tem sido bastante falado e que a mim pessoalmente me toca bastante, embora indiretamente. Não sou ninguém para falar deste assunto, até porque não conhecia nenhuma das pessoas envolvidas, mas sei que me pertubou bastante ter conhecimento dele. 

Na segunda-feira passada dois colegas meus receberam a (triste) notícia de que uma amiga deles tinha morrido, esfaqueada pelo próprio "pai" (entre aspas porque para mim este homem não é digno de ser chamado de "pai", porque um pai não é de todo alguém que é capaz de maltratar a própria filha, muito menos matá-la). Chamava-se Inês, tinha 16 anos e vivia em Soure, bem perto daqui. Volto a referir que não a conhecia pessoalmente, mas este caso mexeu imenso comigo. Disseram-me que era muito boa pessoa, alegre, amiga e humilde, não o posso garantir, mas quer o fosse quer não, não merecia ter tido este fim. O caso foi muito falado durante esta semana, na televisão e nos jornais. Li/vi algumas coisas. Este homem, o "pai" da Inês começou por trancar a mulher e as duas filhas em casa para garantir que elas não fugiam, depois esfaqueou a mulher e a filha mais velha (Inês) até à morte (li num jornal que ele tinha chegado a usar várias facas e que terá dado cerca de 30 facadas a cada uma - não tenho adjetivos para isto, é demasiado cruel, deplorável, inimaginável). No fim do crime ele ter-se-á tentado suicidar mas... não conseguiu (podia expressar a minha opinião sobre isto, mas julgo que seja parecida com a vossa)! A irmã da Inês, com 13 anos, também foi agredida e ficou em estado crítico, mas acabou por sobreviver - o homem parou de a atacar quando achou que ela já estava morta. Mais uma vez digo "homem" porque não sei o que chamar a este ser... muito menos quando a desculpa que deu para ter cometido este crime foi o facto de ter "ciúmes" da companheira e de não querer que as filhas sofressem com a morte da mãe. A irmã da Inês está agora sem a mãe e sem a irmã. Não imagino como se esteja a sentir, mas imagino que seja precisa muita força para voltar a encarar a vida. Não vou alongar-me muito mais, mas não fui capaz de ficar indiferente. Espero que este "homem" responda pelo crime que cometeu, embora pessoalmente ache que nenhuma pena é suficiente para este caso. E espero que a Inês e a mãe sejam recordadas com um sorriso, e que descansem em paz. E que a menina que sobreviveu tenha a força suficiente para sobreviver a esta fase sombria. 

É incrível como de um dia para o outro a nossa vida pode mudar e até mesmo deixar de existir, ainda mais incrível é quando os motivos são estes. Não é nada comigo, mas custou-me na mesma. Custa-me saber que há pessoas capazes de tais monstrusidades e outras que sofrem à custa disso, sem qualquer culpa. É realmente triste.

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das muitas notícias escritas sobre crime aqui (JN)

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publicado às 22:54


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